cover
Tocando Agora:

Com ‘pior dor do mundo’, idosa vive no improviso após ser desalojada pela tragédia da chuva em Juiz de Fora

Idosa com 'pior dor do mundo' teve casa invadida por lama durante temporal em Juiz de Fora Luiza Sudré/g1 Até a última semana de fevereiro, Maria Teresa do V...

Com ‘pior dor do mundo’, idosa vive no improviso após ser desalojada pela tragédia da chuva em Juiz de Fora
Com ‘pior dor do mundo’, idosa vive no improviso após ser desalojada pela tragédia da chuva em Juiz de Fora (Foto: Reprodução)

Idosa com 'pior dor do mundo' teve casa invadida por lama durante temporal em Juiz de Fora Luiza Sudré/g1 Até a última semana de fevereiro, Maria Teresa do Vale Oliveira, de 75 anos, já travava uma difícil batalha diária: conviver com a neuralgia do trigêmeo, uma condição neurológica que provoca dores tão intensas que são descritas por médicos como a 'pior dor do mundo'. Desde o temporal que atingiu Juiz de Fora em 23 de fevereiro e deixou 66 mortos, a situação piorou. Além da dor, Maria passou a lidar com o trauma da tragédia, que desalojou centenas de pessoas, incluindo ela e a família. A aposentada foi obrigada a deixar a casa onde viveu por mais de 40 anos, no bairro Monte Castelo. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsApp A casa foi atingida por alagamento e enxurrada de lama. Apesar de a estrutura continuar de pé, não há confirmação sobre possíveis danos. Por isso, ela ainda vive sem saber quando poderá voltar. "A chuva levou a vida que construí ali" Maria Teresa com os filhos Flávia e Ricardo Luiza Sudré/g1 Vida após o temporal Depois do desastre, Maria Teresa passou a viver de forma improvisada. A família ficou por algumas horas na Escola Municipal Paulo Rogério, depois foi para a casa de parentes e, por fim, se mudou para um imóvel alugado, onde vive atualmente. A poucos metros da antiga residência, ela tenta manter a rotina em um espaço que carece das adaptações que a saúde exige. O apartamento é marcado pelo improviso: móveis emprestados, poucos itens recuperados entre sacolas e malas com o que restou da antiga vida. Ela e a filha Flávia Aparecida Ruels de Oliveira dividem a mesma cama. As despesas aumentaram e a conta não fecha. Além do aluguel, os gastos com os mais de dez comprimidos que precisa tomar por dia passam de R$ 500 por mês. Segundo a família, o medicamento mais eficaz não é fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Família mora em imóvel alugado Luiza Sudré/g1 Memórias do dia da tragédia Nas últimas semanas, ela insistiu em voltar à antiga casa. Queria ver o que restou. Encontrou um ambiente ainda úmido e frio, com marcas de lama no chão e nas paredes. Nem mesmo a retirada de sete caminhões de barro foi capaz de apagar a linha que indica até onde a água chegou. A cena trouxe de volta as memórias do dia da enchente. A família lembra que a água começou a subir rapidamente dentro da casa. A força era tanta que um botijão de gás chegou a boiar. Depois, a lama invadiu o imóvel, destruiu móveis e deixou marcas nas paredes. A saída só aconteceu após um alerta da Defesa Civil e a ação rápida do filho, Ricardo Ruela de Oliveira, que é militar e estava na cidade naquela semana. Por conta da dificuldade de locomoção, foi um resgate difícil. “Meu filho chegou rápido e tirou a gente de dentro de casa. Se a gente tivesse ficado, talvez teria morrido”, contou. Casa foi tomada pela lama durante temporal em Juiz de Fora Luiza Sudre/g1 Entre os destroços, uma das perdas mais sentidas foi a da máquina de costura. O equipamento não era apenas fonte de renda, mas, para Maria Teresa, era afeto e terapia. “Agora nunca mais vou poder fazer, não tenho condições de comprar outra”, lamentou. À espera de amparo e respostas Casa foi atingida por enchente e enxurrada de lama Luiza Sudré/g1 A família de Maria Teresa afirma que teve o Auxílio Reconstrução, no valor de R$ 7,3 mil, aprovado e agora aguarda o depósito. No entanto, ainda não recebeu retorno sobre o pagamento do benefício municipal de R$ 800 destinado às famílias atingidas. Segundo o filho, o cadastro foi feito em diferentes etapas. Inicialmente, a irmã realizou um registro no abrigo para onde a família foi encaminhada após a enchente. No entanto, ele afirma que não houve geração de protocolo nem entrega de comprovante desse primeiro atendimento. “Disseram que minha mãe e minha irmã já fariam jus ao benefício, mas até agora não tivemos retorno”, relatou o filho. De acordo com a Prefeitura de Juiz de Fora, o auxílio é destinado apenas a famílias inscritas no CadÚnico e com residências destruídas ou interditadas. O benefício é voltado a quem já estava cadastrado no programa até 9 de janeiro — o que não era o caso de Maria Teresa. Idosa sofre com marcas emocionais após a enchente Desde a tragédia e a mudança de rotina e hábito, os filhos dizem que ela não é mais a mesma. "As lembranças não vão embora. Quando escurece, eu já fico preocupada, tenho medo de outra chuva. Quando o alarme toca, meu coração dispara. Só penso na minha casa, se a água vai entrar de novo". Apesar de tudo, ela não reclama. Agradece por estar viva e por ainda ter a família. Mas sente falta da casa, do espaço e da autonomia que construiu ao longo de décadas. "Eu queria mesmo era estar na minha casa. A gente está aqui, mas não é o nosso lugar." Ela espera pela liberação da Defesa Civil para voltar. Enquanto isso, segue vivendo com o que restou. Idosa com 'pior dor do mundo' teve casa invadida por lama durante temporal em Juiz de Fora Luiza Sudré/g1 A Prefeitura informou que as vistorias e os laudos das casas afetadas seguem critérios técnicos de prioridade, diante do alto volume de ocorrências na cidade, e que os documentos são emitidos após a conclusão das avaliações em campo. Desde o dia 23 de fevereiro, a tragédia que afetou Juiz de Fora, a Defesa Civil realizou desde o dia 23 de fevereiro, 6.511 vistorias, o equivalente a oito anos de vistorias da Defesa Civil fora do estado de calamidade. Conheça outras histórias das vítimas do temporal que atingiu Juiz de Fora: Mãe e filha grávidas caminham por meia hora para buscar abrigo após sair de casa por risco de deslizamento Casal que está em abrigo levou 20 anos para construir casa e perdeu imóvel em deslizamento ‘Ele foi o meu herói’, diz noiva de policial que morreu ao salvá-la de deslizamento Idosa tem 17 parentes entre mortos e desaparecidos após tragédia da chuva: ‘Tenho que ser forte’ Temporal histórico em Juiz de Fora completa 1 mês VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das Vertentes