Plano para atender população de rua no frio usa dados de censo feito há quatro anos em Juiz de Fora
Pessoa em situação de rua em Juiz de Fora Reprodução/TV Integração A Prefeitura de Juiz de Fora publicou, no início de julho, o Plano de Contingência pa...
Pessoa em situação de rua em Juiz de Fora Reprodução/TV Integração A Prefeitura de Juiz de Fora publicou, no início de julho, o Plano de Contingência para Situações de Baixas Temperaturas 2026. O documento estabelece ações integradas entre diferentes secretarias para ampliar o atendimento à população em situação de rua durante os períodos de frio intenso na cidade. No entanto, o plano foi elaborado com base no último Censo e Diagnóstico da População Adulta em Situação de Rua, concluído em 2022. Desde então, o município não realizou um novo levantamento sobre essa população. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsApp Segundo especialistas, a ausência de um diagnóstico atualizado dificulta identificar quem precisa de atendimento, quais são as principais demandas e como direcionar os recursos públicos de forma mais eficiente durante o período de baixas temperaturas. A Prefeitura informou que o monitoramento diário realizado pela rede socioassistencial é utilizado para orientar as ações voltadas à população em situação de rua. Para o pesquisador Alexandre Aranha Arbia, professor do Departamento de Fundamentos do Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e um dos coordenadores do último censo municipal, esse acompanhamento é importante, mas não substitui um diagnóstico atualizado. "O correto seria ter feito um em 2024 e outro agora em 2026. Esses dados estão muito defasados", disse. Em nota, a prefeitura disse que deverá contratar um novo censo da população em situação de rua ainda neste semestre. Políticas públicas precisam acompanhar as mudanças Segundo Arbia, a atualização periódica do censo permite acompanhar as mudanças no perfil da população em situação de rua e adaptar as políticas públicas às necessidades atuais. Outro problema, segundo ele, é utilizar apenas a procura pelos serviços públicos como indicador da demanda. "Nem todo mundo procura o serviço. Muitas pessoas simplesmente desistem porque não conseguem vaga ou porque aquele modelo de acolhimento não atende às necessidades delas". Durante o levantamento realizado em 2022, cerca de 60% dos entrevistados afirmaram conseguir acessar os serviços de acolhimento. Ainda assim, aproximadamente 70% relataram dificuldades durante o atendimento. O pesquisador cita como exemplo trabalhadores da reciclagem que permanecem nas ruas durante a noite para recolher materiais nas primeiras horas da manhã. Há também pessoas que deixam de procurar abrigo porque não conseguem levar animais de estimação ou têm receio de perder os carrinhos utilizados no trabalho. "Se a população não se vê atendida pelo serviço, o problema não está na população, está no serviço", completou. Diagnóstico evita desperdício de recursos Para Arbia, um levantamento atualizado também contribui para que os recursos públicos sejam aplicados de forma mais eficiente. "Quanto mais precisos são os dados, maior a possibilidade de acertar nas políticas públicas e evitar desperdício de recursos", analisou. Segundo ele, ampliar o número de vagas de acolhimento, por exemplo, não garante que elas serão ocupadas se o município desconhecer os motivos que afastam parte dessa população dos serviços disponíveis. "É ouvindo esse grupo que se constrói uma política pública eficiente. Sem esse diagnóstico, existe o risco de investir em soluções que não enfrentam o problema". Censo mostra quem permanece fora da rede Apesar dos indicadores apresentados pela prefeitura, o professor Arbia ressalta ainda que os registros administrativos mostram apenas quem procura atendimento, enquanto o censo também permite identificar quem permanece fora da rede de assistência, compreender o perfil desse grupo e conhecer necessidades que ainda não são atendidas. "Sem dados detalhados, a política pública passa a funcionar com base em paliativos. Você gira em torno do problema, mas não consegue enfrentá-lo de forma efetiva", completou. Último censo aconteceu em 2022 O último Censo e Diagnóstico da População Adulta em Situação de Rua foi realizado em parceria entre a Prefeitura de Juiz de Fora e a UFJF e concluído em 2022. O estudo identificou 805 pessoas vivendo nessa condição, um aumento de 110% em relação a 2016, quando haviam sido contabilizadas 384. Além de dimensionar o crescimento da população em situação de rua, o levantamento traçou o perfil desse grupo: 84,7% eram homens; 75% se declaravam pretos ou pardos; a idade média era de 43 anos; quase 40% viviam nas ruas havia mais de cinco anos; 35,3% afirmaram ter perdido a moradia durante a pandemia de Covid-19. O estudo também contrariou um estereótipo recorrente: mais da metade dos entrevistados (54,2%) trabalhava com carteira assinada antes de perder a moradia. Quando perguntados sobre o que precisariam para deixar as ruas, as respostas mais frequentes foram emprego (48,2%) e moradia (44,6%). LEIA TAMBÉM: População em situação de rua cresce 110% e passa de 800 pessoas em Juiz de Fora, aponta novo Censo O que diz a Prefeitura? A Prefeitura afirma que o planejamento das ações é realizado com base no acompanhamento permanente feito pela rede socioassistencial. De acordo com a gerente do Departamento de Proteção Especial da Secretaria de Assistência Social, Maria Cláudia Siqueira Dutra, atualmente Juiz de Fora conta com equipes de abordagem social, o Centro POP, três casas de passagem e quatro unidades de acolhimento que funcionam 24 horas por dia. Segundo ela, as equipes percorrem diariamente as ruas e também atendem pessoas que procuram espontaneamente os serviços. "A abordagem percorre as ruas, atende as pessoas, acaba sendo referência na própria rua e faz os encaminhamentos necessários". A prefeitura informou ainda que não há demanda reprimida por vagas nas casas de passagem. As três unidades oferecem 155 vagas e registram ocupação média de cerca de 80%. Já as casas de acolhimento permanente operam próximas de 90% da capacidade. Segundo o município, diferentemente de anos anteriores, não foi necessário abrir abrigos emergenciais neste inverno, já que a estação deverá registrar temperaturas mais elevadas do que em 2025, conforme previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). MAIS SOBRE O ASSUNTO: Mais de 50% dos moradores de rua em Juiz de Fora trabalham; veja perfil População em situação de rua cresce 110% e passa de 800 pessoas em Juiz de Fora, aponta novo Censo ASSISTA: Prefeitura coloca em vigor plano de contingência para frio em Juiz de Fora Prefeitura coloca em vigor plano de contingência para baixas temperaturas em Juiz de Fora VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das Vertentes